domingo, 12 de novembro de 2017

Apresentação do livro "Contos e Crônicas: Ensaios da vida", de João Lemes

João Lemes autografando "Contos & Crônicas" - Feira do Livro de Santiago. Fonte: Nova Pauta


APRESENTAÇÃO
Carlos Giovani Delevati Pasini[1]

Leviano. Boca do Inferno. Crítico dos críticos. Briguento. Criador de casos. Mexeriqueiro. Jornalista enxerido.
Inovador. Criativo. Perspicaz. Inteligente. Artista de palco. Piadista. Analista social. Pesquisador.
Vários são os adjetivos que você, leitor, poderá empregar para o João Lemes, dependendo da relação social que tiver com ele. A profissão de jornalista não é fácil, ainda mais em uma cidade como Santiago, RS, minha terra natal, onde o binário ainda é muito forte: Maragato ou Chimango; Grêmio ou Inter; situação ou oposição; amigo ou inimigo.
Em Santiago, no campo da escrita, também não existe o meio termo: ou você escreve bem, pois é meu parceiro; ou tudo deve ser descartado, pois é oponente. Esse binarismo é herdeiro, talvez, das revoluções sangrentas que a terra viveu, essencialmente da Revolução Farroupilha.
Santiago adjetiva. Santiago também é adjetivada.
Seguindo esse princípio de parcialidade, a minha apresentação estaria condenada, em virtude da relação amistosa que tenho com o João. Em 2017, nós completamos 10 anos de amizade, iniciada em meados de 2008, antes mesmo de surgir a Casa do Poeta de Santiago[2].
Durante todo esse tempo, fiquei sabendo de parte da vida do João Lemes, com a qual o leitor terá contato no decorrer do livro. É verdade que demoramos um pouco para travar uma amizade sincera, momento em que vi a “criança” que existia por debaixo do empresário das mídias impressas e virtuais. Vi a pessoa bondosa, capaz de elaborar argumentos agudos e, ao mesmo tempo, não guardar rancor em relação aos oponentes de discórdia. Somente ao saber de sua história, compreendi como existiam dois Joãos. O guerreiro e o artista.


Como ele nos diz, no texto Um pouco de mim:
Aos quatro anos de idade perdi meu pai. Como a família era muito grande, acabei sendo adotado por uma tia. Até os 14 passei por tudo; humilhação, miséria, violência física e psíquica. No mundo em que eu vivi a infância a violência era coisa comum. E não me refiro apenas à violência física, mas à violência moral, aquela brotada nas palavras.”

Ele nasceu em Coronel Bicaco, no Alto Uruguai, mas viveu em Panambi e carrega na sua alma a essência de Cruz Alta, onde bebeu água da panelinha, pensando em nunca sair da Capital do Trigo.
Teve uma infância muito difícil; por exemplo, lia os importantes gibis na rua, na base de postes, pois a sua casa não tinha energia elétrica. Trabalhou desde muito pequeno em diversas coisas. No jornalismo, está há mais de 30 anos, tendo desempenhado variadas funções, até se arriscar a lançar o periódico Expresso Ilustrado, que é veiculado em mais de uma dezena de municípios da região.
É nesse ponto que o escritor e a obra se encontram. Inúmeros são os intelectuais da literatura brasileira, verdadeiros literatos, que transitaram pelo ambiente jornalístico, dos quais vou citar alguns: Mário Quintana, Lima Barreto, o santiaguense Caio Fernando Abreu, entre outros.
Esse tipo de setor produtivo, o jornalístico, assim como o da área de educação, tem a capacidade de produzir grandes escritores, pois nesses ambientes se trabalha efetivamente com as letras. E, nas “Letras”, o João Lemes vem trilhando o seu caminho, ao se tornar licenciado em Língua Portuguesa e respectivas literaturas (UNOPAR) e estar cursando o Mestrado em Educação (UFSM).
Digam o que quiserem do autor desse livro – palavras boas ou más –, mas uma qualidade ele possui, sendo reconhecida até por adversários que surgem naturalmente no ofício que abraçou: o João Lemes é corajoso.
A sua coragem e a sua força são expressas no corpo do texto desse seu segundo livro, que pode ser caracterizado como uma coletânea de crônicas e de artigos de opinião, que, certamente, favorecerão o crescimento crítico do leitor que se deparar, de forma concentrada, com o teor de seus escritos.
A crônica, de maneira geral, tem por base fatos que ocorrem no cotidiano, sendo um texto usual ao jornalismo. A sua leitura é agradável, pois nela o escritor interage com o leitor, que muitas vezes se identifica com o que é narrado. Usualmente utiliza a primeira pessoa, com o intuito de aproximar o autor de quem lê, daí a sua informalidade, e nela, ainda, o cronista tende a dialogar com o público sobre fatos até mesmo íntimos.
O artigo de opinião, como o próprio nome já diz, é um texto dissertativo em que o autor expõe seu posicionamento diante de algum tema atual e de interesse de muitos, argumentando e assumindo a responsabilidade do que escreve.
O João Lemes é um cronista perito em expressar a sua opinião, algumas vezes de forma mordaz e ácida, mas nunca sem propriedade ou com falta de nexo. Ele desenvolveu um refinado senso de crítica social, ou, como dizemos na literatura, de crítica aos costumes, como muito bem o fizeram o baiano Jorge Amado e o gaúcho Érico Veríssimo.
Nos diversos textos dessa obra, o João não aceita o impensado social ou o que é feito por reprodução simples de hábitos dos outros, seguindo a filosofia antropofágica Oswaldiana[3], como podemos exemplificar, com os seus comentários no texto “Você compra o remédio em loja?”:

Vem cá; por que os donos de farmácias e mercados insistem em chamar esses estabelecimentos de "loja"? Alguém já ouviu o povo dizendo vou à loja comprar farinha; vou à loja comprar remédio? Certas coisas na linguagem ficam só em âmbito de alguns grupos.

Talvez a facilidade do João observar os impropérios culturais ocorra em virtude de ele ter se criado — e se constituído como pessoa — dentro das oficinas de prensa e das redações de jornais. Um bom oficineiro de periódico deve ser um leitor contumaz e, por consequência, um crítico.
Enfim, podemos perceber que existe um “fio condutor” a unir todos os textos desse belo livro, sendo a consequência da busca incessante que move o intelectual João Lemes, ou seja, escritor e obra estão interligados pelo amor ao conhecimento. A paixão pela aprendizagem.
Justo por isso, insisto na intersecção de planos, do signo e do sentimento, componentes que integram a faceta aguerrida e a escrita lúcida do João, audaz lutador que, no embate com as palavras e a crítica, mantém-se firme em seus posicionamentos, muitos deles artísticos.
Parabéns, João Loredi Lemes. Assim como Machado de Assis, você superou todas as expectativas. Tanto quanto o Machado, você superou diversidades sociais terríveis e venceu na vida, além de se tornar um literato regional de respeito. Parabéns pela obra!
Aproveito para congratular o amigo pela consagração, ao ser indicado para Patrono da Feira do Livro de Santiago, cidade que já o adotou como filho e de quem já recebeu o título de cidadão.
Sucesso! Saúde, paz e felicidade.




[1] Carlos Giovani Delevati Pasini: Professor de Literatura. Chefe da Divisão de Ensino do Colégio Militar de Belém. Doutor em Educação (UFSM). Pesquisador do Grupo de Pesquisa Kitanda: Educação e Intercultura/CNPQ, coordenado pelo professor Dr. Valdo Barcelos. Sócio Fundador (2008) e primeiro presidente da Casa do Poeta de Santiago. Membro da Academia Santa-Mariense de Letras (ASL) e da Academia Internacional de Artes, Letras e Ciências. Membro do Conselho Editorial da Editora Caxias. E-mail: professorpasini@gmail.com.
[2] A Casa do Poeta de Santiago foi fundada no dia 13 de dezembro de 2008.
[3] Oswald de Andrade: Antropofagia Cultural, ideal filosófico de “deglutir”, “engolir” o outro, aproveitando apenas o que é útil. O movimento previa um posicionamento crítico, mas não xenofóbico, em relação às influências estrangeiras. Era contra o plágio, a cópia simples e pura, muito usual na década de 1920.

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