sábado, 2 de setembro de 2017

Literatos do Brasil - RAUL BOPP


Raul Bopp («Santa Maria*, RS, 4 de agosto de 1898 – VRio de Janeiro, RJ, 2 de junho de 1984) – foi um escritor modernista, advogado, jornalista e diplomata brasileiro. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Fez parte do grupo que defendeu a Antropofagia Cultural, tendo amizade com Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O livro “Cobra Norato” é considerado como um dos mais importantes do Movimento Antropófago. Descendente de alemães, Bopp nasceu no distrito de Vila Pinhal, em Santa Maria, RS, atualmente pertencente ao município de Itaara. Cursou direito, em diversas universidades, vindo a se formar em 1925. Viajou pelo Brasil, principalmente pela Amazônia, de onde tirou inspiração para a sua obra prima Cobra Norato “(...) Ensaiei, nessa época, além do esboço da Cobra Norato, alguns poemas avulsos (...) Procurei restituir, em versos, impressões recolhidas em minhas andanças na região. Senti claramente o desgaste das antigas formas poéticas, de vibrações poéticas em uso. Elas foram sendo substituídas por maneiras de dizer mais simples, em novos moldes literários. Com a minha vivência na Amazônia, de profundidades incalculáveis, fui pouco a pouco aprendendo a sentir o Brasil, com seu sentido mágico desdobrado na sua totalidade” (BOPP, 1977, p.12-13). Cobra Norato, ou seja, um texto influenciado pela lenda da região amazônica que tratava da Cobra Grande, engolidora de gente. Como ele nos diz: “Em um dos casos que me contaram, nas minhas andanças pelo Baixo Amazonas, aparecia, por ocasião da lua cheia, a Cobra Grande que vinha cobrar o resgate de uma moça. O gênio mau da região, como o Minotauro dos gregos, amedrontava toda a gente, com a exigência desse tributo. (...) Pensei em fixar esse mito num episódio poemático, tendo como pano de fundo, a grande caudal de água doce e floresta. Mas, em vez de um Teseu destemido, para enfrentar o monstro, comecei a procurar, nas lendas amazônicas, um gênio bom que fosse, por coincidência, enamorado da donzela raptada pela Cobra Grande” (BOPP, ibid., p. 60-61).  Norato, personagem escolhido por Bopp, é o salvador da donzela, que desce rio abaixo, levando a moça, tendo auxílio do Pajé, que indica o caminho errado para a Cobra Grande, informando que Cobra Norato, o raptor da moça, havia fugido para Belém. Daí surge o nome “Cobra Norato”, o que levou a donzela, no lugar da devoradora de gente. Metáfora utilizada no modernismo brasileiro. Foi Raul Bopp que deu o apelido de Pagu para a escritora Patrícia Render Galvão, outra figura importante dos movimentos literários e culturais brasileiros. O apelido Pagu surgiu de um erro de entendimento do nome da jovem, o qual ele julgou que fosse Patrícia Goulart. Ele faleceu no Rio de Janeiro, com quase 86 anos de idade, no dia 2 de junho de 1984.

*Na época Santa Maria. O local da residência fica na cidade de Itaara, que se emancipou de Santa Maria.

 Extrato de COBRA NORATO
(...)
Mas antes tem que passar por sete portas,
ver sete mulheres brancas de ventres despovoados,
guardadas por um jacaré.
- Eu só procuro a filha da Rainha Luzia.
Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo.
Tem que fazer mironga na lua nova.
Tem que beber três gotas de sangue.
- Ah, só se for da filha da Rainha Luzia!
Uma descrição da Floresta Amazônica:
Esta é a floresta de hálito podre
parindo cobras.
Rios magros obrigados a trabalhar
descascam barrancos gosmentos.
Raízes desdentadas mastigam lodo.
A água chega cansada.
Resvala devagarinho na vasa mole.
A lama se amontoa.
.............................................................
Vento mudou de lugar
.............................................................
Um berro atravessa a floresta.
Aqui, Cobra Norato, atolado "num útero de lama", encontra um coadjuvante, seu compadre:
- Olelê. Quem vem lá?
- Eu sou o Tatu-da-Bunda-Seca
- Ah, compadre Tatu
que bom você vir aqui
Quero que você me ensine a sair desta goela podre
- Então se segure no meu rabo
que eu le puxo.
Vem depois a chuva, o mar e a pororoca. O poeta Cobra norato e o compadre roubam farinha, ouvem de Joaninha Vintém o "causo" do Boto ("moiço loiro, tocador de violão"), vão a uma festa. O compadre percebe vindo pelas águas algo como um navio prateado:
O que se vê não é navio. É a Cobra Grande.
Quando cmeça a lua cheia, ela aparece.
Vem buscar moça que ainda não conheceu homem.
E vai o poeta levando "um anel e um pente de ouro / pra noiva da Cobra Grande", quando lhe perguntam:
Sabe quem é a moça que está lá em baixo
...nuinha como uma flor?
- É a filha da Rainha Luzia!
O poeta rapta-a e fogem. Cobra Grande os persegue. Mas Pajé-Pato ensina o caminho errado para a Cobra Grande, que:
esturrou direito pra Belém
Deu um estremeção
Entrou no cano da Sé
e ficou com a cabçea enfiada debaixo dos pés de N. Senhora
Enquanto isso, o poeta vai para as terras altas com a noiva onde se casam e são felizes:
- E agora, compadre
vou de volta pro Sem-Fim
vou lá para as terras altas
onde a serra se amontoa
onde correm os rios de águas claras
entre moitas de mulungu.
Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor
Quero sentir a quentura
do seu corpo de vai-e-vem
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem.
Convida para o casamento muita gente, até a Maleita:
Procure minha madrinha Maleita
diga que eu vou me casar;
que eu vou vestir minha noiva
com um vestidinho de sol.
E acorda, pois o poema era um sonho.
Os fragmentos transcritos a seguir exemplificam alguns momentos da grande força lírica:
A lua nasce com olheiras
O silência dói dentro do mato
Abriram-se as estrelas
As paguas grandes encolheram-se com sono.
A noite cansada parou.
Ai, compadre!
Tenho vontade de ouvir uma música mole
que se estire por dentro do sangue;
música com gosto de lua,
e do corpo da filha da Rainha Luzia
que me faça ouvir de novo
a conversa dos rios
que trazem queixas do caminho
e vozes que vêm de longe
surradas de ai, ai, ai.
Atravessei o Treme-Treme
Passei na casa do Minhocão
Deixei minha sombra para o bicho-do-fundo
só por causa da filha da Rainha Luzia.
No princípio era sol, sol, sol
O Amazonas não estava pronto
As águas atrasadas
derramavam-se em desordem pelo mato.
O rio bebia a floresta
Depois veio a Cobra Grande amassou a terra elástica
e pediu para chamar sono
As árvores enfastiadas de sol combinaram silêncio
A floresta imensa chocando um ovo!
Cobra Grande teve uma filha.
Noite está bonita.
Parece envidraçada.
Dormem sororoquinhas na beira do rio.
Árvores nuas tomam banho.
Jacarés em férias num balneário de lama
mastigam estrelas que se derretem dentro d'água.
Por entre trouxas de macegas
passa uma suçuarana com sapatos de seda.
Ventinho manso penteia as folhas de embaúba.
A paisagem se desfia num pano.
Cunhado Jabuti torceu caminho
- Dê lembranças à dona Jabota.
Enquanto é noite
com todo esse céu espaçoso e tanta estrela
vamos andando e machucando estradas
mais pra adiante.

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