segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Artigo Jornal A Razão - 26 de novembro de 2015 - Um Atentado na França


Um atentado na França
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Dia desses, houve um atentado na França.
Assassinados cruelmente, morreram cerca de 130 pessoas inocentes.
Escrever sobre catástrofes como essa, excetuando-se os jornalistas que trabalham com a informação, é atribuição para melancólicos. Refletir a respeito de assuntos animalescos, nos levam ao mais desumano de nossa espécie e entristecem a própria alma.
A melancolia está em perceber que não existe imbecilidade maior do que uma ideologia radicalizada, o que geralmente nos leva à barbárie. Da mesma forma, a religiosidade fanatizada, deixa de ser espiritualidade positiva e passa a ser excremento humano, ou seja, violência febril.
A culpa, então, não está na ideologia ou na religiosidade, mas, sim, no fanatismo e na histórica violação do respeito. O fanatismo é uma violência à individualidade do outro.
Essa doentia tendência humana coletiva, que busca destruir outras opiniões ou pensamentos. Algo tão comum no mundo, tanto quanto no Brasil, onde o terrorismo acontece diariamente, por exemplo, com as mais de 140 mortes diárias, somente por homicídios. A violência transformada em dia a dia e descaso; o terrorismo diluído na completa ignorância.
O horror se encontra na fome e na sede de populações africanas, latinas e asiáticas, essencialmente em crianças, invisíveis, que morrem de inanição.
O terror está nas mortes causadas pelos bombardeios de coalisão ou na reação de rebeldes, que forçam milhões de pessoas a fugirem da Síria, rumo à Europa (Terra Prometida?).
O temor está ao parar o carro, de noite, num sinal de trânsito brasileiro. Está no apavoramento de se enfrentar uma fila do SUS, ou ter que defender os próprios direitos em um país que cumpre pouco as suas leis.
O pânico se encontra nos bilhões de reais que são desviados do povo brasileiro, que também morre de fome, de sede e falece de sonhos; está no fato da corrupção não ser um crime hediondo, que terceiriza a falência múltipla dos necessitados, pois pessoas morrem por falta de segurança, de saúde, ou mesmo de educação.
Dia desses, houve um atentado na França. Morreram cerca de 130 pessoas inocentes.
Demonstração de um extremismo que emudece a compaixão. A fé transformada em pó.
Qual seria a esperança?

A arte é a única saída para a opressão, pois apaga o ódio, dilui a maldade e afaga os carentes. Mas ela só é bonita se a barriga estiver cheia e o coração permanecer batendo. A esperança está no final desse mundo doentio, arquitetado por falsos deuses e liderado por pérfidos intelectuais.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Artigo do Jornal A Razão - 18 de novembro de 2015 - Padre Atino





Padre Atino
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

Amar é – verdadeiramente – um ato humano.
Mas... Quantas vezes você já sentiu raiva de alguém?
***
Atino era um jovem padre, que buscava não ter ódio. Entretanto, foi de repente. As palavras inadequadas saíram daquela boca, ofendendo-o com o maior dos vigores.
Os segundos que se passaram, logo após a injúria, transcorreram num absoluto silêncio, ainda com todas as sensações imóveis. As paredes não se mexiam e o tempo estava num daqueles raros instantes, que parece não haver o depois.
Os próximos pensamentos, envoltos pela mágoa, foram de retrospectiva, relembrando toda a sua existência. Nasceu triste, ficou em pé, cresceu e sustentou as inquietações que o transformaram no que ele era: um respeitado pároco.
Em momento algum, na sua vida de sacerdote, pensara em desistir – até agora. Tinha sobrepujado os desejos mais secretos; havia dominado as necessidades carnais que Roma considerava obscuras; manteve a sua fé, com paciência, em nome da doação. Doar em silêncio – essa era a sua vocação.
Na juventude, pensara que conseguiria suportar as mesmas chagas de Jesus e padecer em qualquer calvário. Após aquele ultraje, contudo, retornava a ser apenas uma criança indefesa, com medo dos fantasmas que flutuavam na base de sua cama de menino.
Uma palavra, uma pessoa, várias indecisões. Olhava aquela mulher opulenta, larga, obesa e pensava “Eu nunca fui isso!”. No fundo dos olhos femininos, gélidos, perdurava uma friesa que ele nunca vira igual.
Ele tentou se defender: “Mãe...”, mas foi interrompido, com a repetição do insulto: “Você é um grande egoísta! Egoísta!” Aquela voz aguda o encobriu, como um amplo manto negro, forte e tenebroso.
Somente ali percebera que uma frase tinha tanta força quanto diversas adagas.
Descobriu, então, que uma menção também poderia vir a ser um demônio feroz.
***
Atino queria paz. Deixou de ser padre e resolveu ser humano...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Artigo Jornal A RAZÃO - 04 Nov 2015 - "Ainda Existe uma Esperança"

 
 
Ainda existe uma esperança
Giovani Pasini (professor e escritor)
E-mail: professorpasini@gmail.com

     Ainda existe uma esperança.
    Quando a política e a violência parecem querer acabar com os sonhos, surgem situações que iluminam a alma. Quando a economia oprime, a arte é que liberta. Ela, a arte, salva-nos do mundo desumano e ofensivo. Dois fatos importantíssimos, ocorridos na semana passada, comprovam o que digo.
    O primeiro, foi o “Festival da Canção”, do Colégio Militar de Santa Maria, no dia 29 de outubro. Mesmo que correndo, por outras atividades de trabalho, pude observar a música e a sua magia etérea. A música, tão enaltecida por Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Renato Russo, Elis Regina e tantos outros ‘hipnotizadores’ de ouvidos. Vários jovens do Colégio Militar, nas diversas categorias, por uma iniciativa daquela escola, puderam encantar os momentos dos próprios colegas e de educadores. Enquanto ouvia as bandas nativistas ou de Rock, eu pensava: “No meio dessa juventude, aparecerá um novo Raul Seixas? Talvez um grupo como o Paralamas do Sucesso? Ou, quem sabe, um Tim Maia?”.
     Ainda existe uma esperança.
    Outro momento, tão sublime quanto, foi o concerto realizado na sexta-feira, dia 30 de outubro, pelo Centro Social e Cultural Vicente Pallotti. Somente quem estava lá conseguirá verdadeiramente compreender o que digo: assistimos a um Centro que trabalha com muito amor, em prol de crianças de nossa região. Lá, naquele imenso anfiteatro de Santa Maria, percorremos nuvens de liberdade. As crianças dedilharam a nossa alma, utilizando instrumentos clássicos, com vozes de um coral que inundou todos os sorrisos. Parabéns à coordenadora Márcia Batista, ao maestro André Chiomento, a todos os profissionais envolvidos e, principalmente, aos alunos que se empenharam para nos transmitir alegria. O espetáculo “Sonhos” iluminou aquela parte tão importante, escondida dentro de nosso peito, chamada ‘coração’. Não o de carne, músculo pulsante; mas aquele imaginário, que nos leva a olhar para frente. Sempre.
       Ainda existe uma esperança.
     Ela está nessa juventude. Na que anda por colégios civis e militares, que frequenta centros sociais, que ainda tem a vontade de modificar o país. De alterar as reticências da imoralidade, tão atroz na alta cúpula de quase todas as esferas.
      A esperança também está na arte – e em toda a beleza que ela produz – a arte capaz de alterar a compreensão do ‘Outro’, da vida e da necessidade de ser; não somente de ter, ou mesmo de dominar. Enfim, a esperança está no afastamento de si mesmo; para sentir a leveza de várias crianças, que conseguiram silenciar o barulho e sonorizar o silêncio. Sol e som. Esperança.
 
 
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