sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 27 de dezembro de 2013 - Boas Festas - por Giovani Pasini

Boas festas

Era uma vez uma rolha de espumante. Não era uma rolha qualquer; ela era importada. Havia participado de um momento incrível: tinha ido às alturas, no estouro único de sua existência. Alcançou, no auge do percurso, quase o céu de estrelas! Mas caiu, caiu e caiu. Assim como Caim matou Abel, a rolha assassinou o próprio futuro. Teve depressão, deitada, no meio das gramíneas verdes, lá no fundo de um pátio qualquer. Tinha nascido para subir nas alturas, para causar espantos! Entretanto, agora estava ali, entre gravetos e formigas. Sofreu ao perceber que havia sido apenas a coadjuvante das boas festas dos fortes. Existiam, também, os outros atores: a garrafa, o rótulo, o ferrinho que segurava os seus impulsos e o destacado espumante! Agora, eles estavam todos apagados num passado de glória. Estirada no chão, abandonada, sozinha, a rolha sentiu que havia atingido o fundo do poço. Não serviria para mais nada. Não teria significação alguma manter a existência. A saída era a escuridão. O fim.
Até que, num dia cinza, um menino encontrou a rolha jogada no pátio. Pegou aquela tampa de plástico e analisou, como faziam as crianças de antigamente. Olhou de um lado, de outro. Tirou os resquícios de terra, que já cobriam o objeto. Deu uma soprada forte e encaixou a rolha num boneco de madeira. Desenhou dois olhos, uma boca e um nariz. Instantes depois, o moleque já saía para brincar, correndo, com o novo boneco construído com as próprias mãos. Aquele seria o melhor brinquedo de toda a sua infância; o companheiro acarinhado, dias e noites, nas divagações da meninice.
A rolha, ‘ex-filósofa’ da agonia, não demorou a perceber que mais perfeito do que as alturas, do que o auge, era a aventura de conhecer o mundo, nos braços de um grande amigo. Nem sempre nascemos para o que pensamos.

Boas festas para todos nós!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 20 de dezembro de 2013 - Autoridade X respeitabilidade

Autoridade X Respeitabilidade


Autoridade? Respeitabilidade? Dentro da diversidade social, temos um tipo de profissão que deve se destacar das outras, pelo empenho ético e moral: a do servidor público. Como funcionário público federal, do Exército Brasileiro, sou um desses trabalhadores que servem à nação. O mesmo ocorre com os diversos cargos eletivos, por exemplo, prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, entre outros. Para quem não sabe, o serviço público (civis e militares) é mantido pelos impostos recolhidos do próprio povo.  Tanto eu quanto eles, com as diversas particularidades, somos empregados da população. O nosso chefe maior é o Brasil, guardado pela Constituição da República. Por outro lado, o agente público paga impostos, ou seja, no final de tudo, também somos mantenedores de nós mesmos. É impositivo que os poderes, prerrogativas e deveres de funcionário público sejam seguidos à risca, com seriedade, pelo tempo transitório que se ocupe o cargo. É isso e ponto. Servir ao país, não é o mesmo que “se servir do país”. (Numa sociedade séria, se um filho de ex-presidente ficasse milionário, de uma hora para outra, existiriam consequências?). Voltando ao assunto, há boa probabilidade de um agente público, investido de autoridade por tempo limitado, cair numa depressão terrível quando desocupar o cargo. É usual, na aposentadoria ou final de mandato, haver uma crise existencial. Talvez não fique claro, em virtude do espaço da coluna, mas a respeitabilidade é mais importante do que a autoridade. A preparação psicológica para aquela ‘transposição’ deverá ocorrer durante toda a carreira. As minhas futuras distrações, que já desenvolvo, serão a ‘educação’ e a ‘literatura’. Quais serão as suas? 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Artigo do jornal Expresso Ilustrado - 13 de dezembro de 2013 - Continho aDeus

Continho aDeus


Certa feita, um grupo de cientistas brasileiros decidiu realizar uma experiência não autorizada. Colocaram um bebê dentro de um grande cercado de espelhos intransponíveis, no meio da selva amazônica. O círculo, onde a criança estava, era imenso. Dizem que passava de centenas de hectares. Nessa prisão natural, não existiam humanos e nenhum animal que o ameaçasse. Tudo foi cuidadosamente planejado: não ficaram cobras, felinos, nem outros animais predadores.  Ao contrário, naquele local existiam riachos, árvores frutíferas, animais pequenos e mansos. A comida também não era problema: a equipe de cientistas tratava de ‘deixar’ alimentos ao alcance dos olhos do investigado, sem que ele os percebesse. O objeto da pesquisa, diziam os especialistas, era verificar se aquela criança iria se comportar como lobo (mesmo sem ter lobos no local), ou como macaco (mesmo sem macacos). Qual seria o comportamento, sem possuir alguns animais para copiar, nem mesmo outro humano? Ao final de 15 anos, quando o jovem abordou a adolescência e a verba acabou, os cientistas chegaram a respostas inconclusivas: o garoto tinha comportamentos de humano, de lobo e de macaco. É fato que parecia mais um macaco, apesar de ter um porrete nas mãos. A violência corria pelo seu sangue ancestral. Contudo, um fato intrigou os pesquisadores: todos os dias, o jovem se ajoelhava, adorava o sol e a lua. Uma das ponderações que foi levantada, por um doutorando – o conceito de Deus pode até não ser inato ao homem, ou seja, pode até não nascer com ele. Contudo, a convicção de finitude e de que há algo a mais, maior, faz parte de nossos poucos genes “não macacais”. Como dizia o sábio Fernando Pessoa “Haja ou não deuses, deles somos servos”.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Evento internacional em Santa Maria - participe!

Realizada a 1ª Reunião de Coordenação do VIII ENCONTRO DE ESCRITORES DO MERCOSUL - V CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO INTERCULTURAL E LITERATURA CONTEMPORÂNEA.

Local: Santa Maria, RS, Brasil 
Data: 2 a 4 de maio de 2014
Tema Geral: "A Literatura Contemporânea e a Intercultura na América Latina do Século XXI"
Organização (Ordem alfabética):
- Casa do Poeta Brasileiro (POEBRAS)
- Casa do Poeta de Santa Maria (CAPOSM)
- Centro de Integração Latino-Americano (CILAM)
- Eduardo Galeano – produções e integração
- Grupo Kitanda (Centro de Educação da UFSM)
- Prefeitura Municipal de Santa Maria.






sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 06/12/203 - o Binário démodé - por Giovani Pasini

O binário ‘démodé’


A sociedade contemporânea se modificou: o raciocínio lógico-binário está fora de moda, ou como queira o leitor, démodé. Machado de Assis, no seu artigo do Correio Mercantil, em 12/01/1859, escrevia “É a época das regenerações. A Revolução Francesa (...) foi o passo maior da humanidade para entrar neste século.” Ele falava sobre a revolução que ocorreu entre 1789 e 1799; aquela que modificou o mundo. Arrisco a parafrasear, predizendo o futuro: é a época das regenerações. A fé está na mutação das relações humanas, já não mais tão binárias: normal x deficiente; branco x negro; esquerda x direita; situação x oposição; partido x povo etc. No início do Séc. XXI, o cérebro humano ocidental está compartimentado, virtual, e não acredita mais no ‘real’. Temos que ter alguns cuidados, é claro. O primeiro é percebemos que a comunicação se tornou plurilateral e resumida. Fato positivo pelas variadas informações à disposição e negativo pela confiabilidade das fontes, além da pouca assimilação do conhecimento. O segundo aspecto, ressalto, é o nativo da era da internet realizar uma autoanálise se a ‘fotografia do momento’ não ganhou uma importância maior na sua vida do que o ‘aproveitar o momento’. O instagram que o diga. O facebook que o comprove. Não temos como remar contra a maré; tal como os nativos, vamos sacar o ipad, ou ipod, ou o celular S4 (câmera digital? Nossa, cara! Como você é velho!) e fotografar o melhor instante, aquele que irá nos diferenciar de todos os outros ‘posts’ do ‘face’. A lógica binária está démodé. A vida de carne e osso também. Ouso definir a próxima geração, após essa nossa de ‘viciados em terabytes’ – Ela verá a internet como uma excelente ferramenta, não como uma lógica binária de existência: curtir ou não curtir.
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