sexta-feira, 8 de março de 2013

Artigo do jornal Expresso Ilustrado - 08 de março de 203 - Os sonhos e o coração - por Giovani Pasini


Os sonhos e o coração

Conta a lenda que um prisioneiro, certa feita, conseguiu sobreviver numa masmorra, por diversos anos. Mais do que isso, ele resistiu a incontáveis dias dentro de uma solitária. O local em que ele ficara era escuro, frio e úmido. As doenças surgiram; o corpo emagreceu e os olhos cegaram. Os guardas não entendiam, contudo, qual era o motivo de tamanha resistência. Outros detentos não haviam suportado um terço daquele tempo, pois as condições eram terríveis. Certo dia, uma sentinela do castelo resolveu perguntar “Ei! Como você sobrevive? É tão ruim aí!” Tossindo muito, quase sem força, o prisioneiro disse “O coração é um tambor; os sonhos são os foliões; e a escuridão é a passarela...” Para o guarda, aquelas palavras foram o reflexo da loucura. Mal sabia que aos olhos do aprisionado, poeta livre, a vida imitava a arte e a arte copiava a vida. A cela negra servia apenas de fundo, para os múltiplos sonhos: gramas verdes, pássaros coloridos, rios de água pura, céu imenso e, principalmente, os abraços da amada. A imaginação eternizava o brilho da alma e, naquele breu, ele construía as mais variadas apoteoses. Posteriormente, o mesmo guarda insistiu “Como você aguenta?”. A resposta que teve foi “A verdade é que eu vivo. Vocês é que sobrevivem...” A partir daquela frase, o soldado sentiu seu mundo desmoronar – eram os sonhos que glorificavam um homem, não a sua posição social. Os sonhos, caríssimo leitor, e não as bombas, é que explodem o coração dos bravos. E o prisioneiro? Como todo pó e toda a carne, transformou-se em poesia. Noutro plano, ele já se preocupava em cuidar de todos os animais e plantas que havia criado, durante os anos do mais puro carnaval.

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