sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Artigo Jornal Expresso Ilustrado - 07 de setembro de 2012 - O Inferno de Dante - por Giovani Pasini


O Inferno de Dante
(Série de contos, fábulas e ironias)

Friedrich entrou num mundo desconhecido. Ao empurrar uma parede imaginária, caiu num local onde tudo era tenebroso. A maioria das pessoas, no ambiente sinistro, locomoviam-se engatinhando, com os joelhos e as mãos no chão. Os gemidos eram coletivos e os gritos ecoavam nos corredores. “Com certeza...”, pensou ele, “...todos estão com a saúde frágil”. Aqueles indivíduos, seres engatinhantes, pareciam animais irracionais, ao brigar por um pouco de comida e escassa atenção. Eram impregnados de pobreza recorrente, o que os tornava subumanos. Friedrich ficou fortemente assustado, pois transitava pelas escadas, em pé, enquanto os sujeitos rastejavam na altura de suas canelas. Ao chegar numa ampla sala, encontrou centenas de humanoides, todos atentos a um orador (ereto). O locutor ludibriava os ouvintes, contando histórias embusteiras e fazendo falsas promessas, que causaram enjôos no jovem Friedrich. Eram mentiras e mais mentiras, que o fizeram refletir: “Será que esse povo é ignorante? Será que esses caras não se interessam pela história? Por qual motivo não se levantam contra a exploração?” Os poucos poderosos, apesar de retezados (e de terno), também possuíam uma saúde frágil: a falta de moral e a insanidade mental atingiam os seus grupos. A falsidade ideológica fazia com que eles ficassem a maior parte do tempo rastejando, para enrolar os desiguais. Friedrich, indignado com tudo aquilo, encontrou o primeiro homem verticalmente posicionado e perguntou “- Por acaso, aqui é o inferno?” A resposta do interlocutor foi o que mais o assustou: “- Não... Aqui é o Brasil.”

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