sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 28 set 2012 - O leito seco de uma dor - por Giovani Pasini


O leito seco de uma dor

Em Recife, capital de Pernambuco, uma menina de 4 anos é estuprada e morta por um maníaco. No interior daquele estado, na cidade de Feira Nova, um guri fica feliz ao ganhar um chiclete de caixinha, o qual nunca havia mascado. Na mesma localidade, uma senhora, de nome Elzira, agradece a Deus por receber água na cisterna de sua casa. Ela faz isso, com palavras singelas, do outro lado de uma janela gradeada, segurando uma caneca branca, de metal. A caneca está vazia. Os casebres, numa população de pobreza extrema, surgem aos montes, enfileirados, uns após os outros. Fico depressivo, caro leitor, ao recordar que o meu falecido pai, há cerca de 20 anos, acreditava no fim da corrupção. Tenho a tristeza de assumir que perdi a crença na nossa atual democracia; (o resto da esperança está nos jovens e no STF). A dor é imensa ao encarar os olhos de um idoso nordestino, feições típicas e mãos calejadas, implorando que eu faça algo (o possível) para a sua família receber uma maior quantia de água: “O senhor é que manda... Por favor, ajude nóis...” Eu não mando em nada! Aliás, ultimamente, (co)mandar tem sido muito difícil; tanto quanto dominar a angústia, no leito seco de uma alma, ao enxergar os diversos “dragões da inépcia”. Sou feliz, pois estou vivo. Agora, não consigo compreender a supremacia do dinheiro sobre a honra. Vamos todos morrer! Vamos todos apodrecer! A diferença é que alguns já fedem, estando vivos. A podridão da alma cheira bem mais do que a da carne. Um verme estupra, um estrume desvia, um escroto suborna. Todos eles já estão enterrados – vivos.

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