quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nina e Carminha em Brasília - por Nelson Motta

Nelson Motta, jornalista 
           Nina e Carminha em Brasília
        Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse  
descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito 
provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da 
Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto tem todos os 
motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito 
heróico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu".

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o 
candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem 
ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma 
Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefa da Casa Civil, ou 
presidenta da Petrobrás.

Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por 
montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso 
Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, 
massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos 
braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: "Dirceu 
guerreiro/ do povo brasileiro". Ufa!

A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia 
que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era 
irrelevante.
O importante era o dinheirão.
Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido 
que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição 
de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos.

O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para 
controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro 
público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto 
juntos criariam uma marca mais forte e eficiente.

Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior
escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido 
pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu.
Como Nina e Carminha da política, 
é a história de uma vingança suicida, 
uma metáfora da luta do mal contra o mal, 
num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, 
o trágico e o cômico, 
a coragem e a vilania.
Feitos um para o outro.

ESTADÃO - O GLOBO

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