segunda-feira, 16 de julho de 2012

E-mail recebido do Oracy Dornelles - Túlio Piva, o mais improvável do Samba (clique em mais detalhes


Túlio Piva, o mais improvável samba (fim)

O Sul21 está publicando, em capítulos, o livro Uma História da Música de Porto Alegre, do compositor e jornalista Arthur de Faria.
Já que falamos nele… Lúcio do Cavaquinho.
Nascido em Rio Pardo – 137 quilômetros a oeste de Porto Alegre –, no dia 18 de outubro de 1936, foi tentar a vida na capital em 1959, depois de anos de trabalho na profissão menos chorona possível: peão e capataz de estância. Mas, ainda que tenha chegado na capital já formado em teoria e solfejo pelo conservatório de Rio Pardo – tocava violino antes de passar pro cavaco –, levou, como  Túlio, muito tempo pra virar músico profissional.
O ano era 1975, ele tinha já 37 primaveras, e pedira demissão do cargo de chefe do Setor Central de Desenho do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS para se tornar um dos nomes mais importantes do choro em Porto Alegre, trabalhando na noite pelos 15 anos seguintes – como diretor artístico de casas como o Chão de EstrelasCandelabro e o Clube da Saudade, além do já citadoGente da Noite.
Começa liderando o citado Triunvirato do Samba.

Gente da Noite, o bar: Túlio acompanhado do Triunvirato do Samba. Lúcio decidiu que todos usariam óculos, pra dar unidade, mesmo quem não precisasse.
A partir daí, grava muito e acompanha em discos e shows gente como Nelson Gonçalves, Altamiro Carrilho, Jamelão, Beth Carvalho, Ademilde Fonseca, Déo Rian, Carlos Poyares, Moreira da Silva e por aí vai. Monta a dupla Recital de Cordas com o grande violonista Jessé Silva, seu amigo inseparável. E, por longo tempo, lidera o regional Lamento. Primeiro convidado do projeto O Choro é Livre, do Theatro São Pedro – o Lamento tinha, além dele, Plauto Cruz na flauta, Mário Schimia no violão, Valtinho no pandeiro e Runi no surdo. Além disso, integrou por uma década o Conjunto Vibrações – cuja segunda formação teria Lúcio e Jessé, mais Giovanni BertiRodrigo e RogérioPiva.
Túlio, um anônimo, Professor Darcy e Lúcio do Cavaquinho. Que trio!
 
Tulio e Jessé Silva, outra dupla inseparável.
 
Todo seu talento de compositor, instrumentista e bandleader está registrado num CD independente lançado em 1997, só com músicas suas, bancado pelo Fumproarte, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Talvez um pouco tarde, já que não conseguiu reverter a sensação que lhe abateu no começo do novo milênio: uma certa revolta com o pouco reconhecimento de seus serviços prestados à música de Porto Alegre. Cansado, voltou para Rio Pardo e morreu pouco depois, dia 9 de fevereiro de 2004.
*        *        *
 Em 1982 a febre sambista tinha amainado, mas o choro e os discos independentes seguiam muito bem. Cruzando as informações, Túlio lança de forma independente seu quarto e último disco: Sambas e Choros
O disco dividido com os netos
Contracapa
 
De um lado, sambas novos, cantados em parceria com Eneida e acompanhado pelo Conjunto Vibrações e Plauto Cruz. Do outro, só o Vibrações tocando chorinho. Quando, em 1985, o jornalista Kenny Braga publica uma biografia de Túlio, ele está no auge da sua condição de anfitrião de clássicos churrascos que atravessavam todo o final de semana (na sua casa ou na da filha), pelos quais passaram todos os músicos locais de choro e samba, mais Paulinho da Viola, Nelson Gonçalves, Beth Carvalho, Luiz Ayrão, Jorge Goulart, Francisco Petrônio, os Demônios da Garoa, Joel Nascimento, Baden Powell, Carlos Lyra, Jamelão e até Benito de Paula e Nelson Ned!
A biografia escrita pelo amigo Kenny Braga
Seu último grande show acontece em 1991. Ensaiado por meses e com direção geral de LucianoAlabarse, o espetáculo trazia Túlio acompanhado por um grupo formado pelos oito jovens músicos doBando Barato pra Cachorro, mais o reforço dos netos e Giovanni Berti. Com esse bandão de 11 pessoas, arrasou. Estava feliz como um guri, mais jovem do que todos à sua volta. O que só ele e o genro Jayme sabiam é que ele estava com câncer, e aquele provavelmente seria seu último espetáculo – como efetivamente foi.
(O autor destas mal-traçadas era sócio-fundador do Bando, e teve a alegria de participar de tudo. O grupo fazia recriações, por vezes  radicais, de música popular brasileira de décadas passadas. Portanto, cada vez que se aprontava uma versão, era aquele medo: será que o Túlio vai gostar? E ele vibrava com tudo, o mais entusiasmado naquele inferno de fios, afinações e temperamentos exaltados de uma dúzia de jovens enfiados num porão. Entre o convite para o show e a estreia, compôs mais dez músicas: “Chega, Túlio! Pelo amor de Deus! Tem repertório pra mais três shows!”. E seguia o medo infundado dele estrilar com os arranjos: Estrela Perdida, uma velha marcha-rancho, com bateria eletrônica, flautim e guitarra baiana com distorção? Adorou. Sputnik Nacional – um sambaço de 1957 no qual ele falava do satélite russo, transformado num mambo cheio de compassos alterados e dissonâncias? Dessa vez ele chegou no ensaio e ficou quieto enquanto o grupo ensaiava, naipe a naipe, o arranjo cheio de encrencas. Na primeira passada completa, seus olhos se enchem d’água. Só diz uma frase: “– Essa eu canto”. Elis Regina tinha entendido tudo ainda adolescente, quando gravou a sua Silêncio:
 
Silêncio, atenção!
O samba já tem outra marcação.
O pandeiro já não faz o que fazia,
Violão só é na base da harmonia.
Silêncio, atenção!
Por que o samba já tem outra marcação.
A roda do mundo sempre vai girando, vai girando sem parar.
Tudo nessa vida se renova,
A bossa velha deu lugar a Bossa Nova )
*                       *                         *
Túlio deixou como legado sua batida única de violão – que ainda está por ser mais aproveitada – e pelo menos três dos maiores clássicos do samba gaúcho: Tem Que Ter MulataGente da Noite ePandeiro de Prata. Morreu em 11 de fevereiro de 1993, depois de dois anos de batalha contra o câncer e, ironicamente, semanas depois era enredo de duas escolas de samba gaúchas: a Acadêmicos da Orgia, da sua Santiago do Boqueirão, e a Praiana, do Grupo A de Porto Alegre, cujo tema era Lua e Sol – Cenário Inspirador de um Poeta: Túlio Piva. Rogério, Rodrigo e Giovanni estavam lá, tocando e cantando junto ao carro de som.
Deixou também um baú com centenas de músicas inéditas, caprichosamente gravadas em fitas cassete. A última, escrita dias antes da sua morte, se chama Ladeira da Vida. Túlio, já bem doente, chamou a velha amiga e intérprete Anamaria Bolzoni, mostrou o samba e concluiu: Está pelada a coruja, Anamaria.
*        *        *
O CD póstumo, cheio de inéditas
Parte delas foi arranjada e gravada no CD póstumo Túlio Piva – Composições Inéditas, lançado em 1995 também pelo Fumproarte, produzido pelos netos e reunindo dezenas de músicos, cantores e cantoras das mais diversas gerações, todos seus admiradores.
Em 1999, o Teatro de Câmara da prefeitura municipal de Porto Alegre é reformado e batizado como Teatro de Câmara Túlio Piva. Pra fechar, em 2005, o Programa Petrobrás Cultural financia o CD BookTúlio Piva – Pra Ser Samba Brasileiro, uma caixa produzida por Rodrigo e Márcio Gobatto, reunindo um CD duplo com o melhor de seus LPs e um livro de textos variados e poemas escritos desde 1933 (boa parte deles, sonetos, nas regras da arte, além de um capítulo inteiro de insuspeitos versos regionalistas).
 

 
*        *        *Pelo que compunha, Túlio poderia ter tentado a vida no Rio – ou, mais facilmente, São Paulo. Há até uma foto histórica de um jantar no Clube dos Cozinheiros, onde ele toca violão numa mesa que reúne Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Lupicínio Rodrigues Alcides Gonçalves, no maior clima de intimidade.
A foto
Mas, se quando saiu de Santiago para Porto Alegre já não era nenhuma criança, mais tarde ainda é que não teria vontade, coragem ou necessidade pra arriscar a vida familiar com mais uma mudança – e possivelmente seria mais difícil gerenciar uma farmácia ou um bar num lugar onde não tivesse tantos conhecidos. Foi ficando, ficando e pagou um preço – ao que parece, sem maiores mágoas.
Ou melhor: quase sem. Uma ele tinha, a partir do final da década de 1970: não tocar no rádio, nem aparecer na TV com frequência. Entre os de sua geração, isso não era privilégio seu. Mas, como bem definiu o neto Rodrigo, isso doía mesmo: um compositor popular… sem povo.
Uma das suas últimas fotos ´posadas´
Só que quem conheceu Túlio sabe que nenhuma alegria lhe parecia maior do que mostrar seus sambas novos, cercado dos netos músicos, dos amigos músicos e dos amigos músicos dos netos músicos. Muitas e muitas vezes, no velho sobrado da Duque de Caxias, coração da parte mais aprazível do centro de Porto Alegre, onde morou até morrer, sempre ao lado da sua maior tiete e crítica: a parceira de um casamento de mais de meio século, Eloíza. O boêmio mais família de Porto Alegre.
*                       *                        *Pra reescutar Elis cantando “Silêncio“.
*                         *                          * Aqui, um documentariozinho bem bacana sobre o Túlio, que os caras tão tentando transformar num documentariozão.
*                         *                          * Aqui, muito Tulio Piva, Rogério Piva, Rodrigo Piva, Caco Velho, Lúcio do Cavaquinho e toda essa cena, com os Conjuntos Melódicos começando a dar as caras.
 *                      *                           *Falando nisso, sábado que vem começa um dos mais (ao menos para mim) surpreendentes capítulos desta história: a fascinante saga dos Conjuntos Melódicos!

 



"Si no está roto, no lo arregles. Si ya no funca, no lo guardes"
Martin Buscaglia

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