sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ensaio: "Entre a poesia e a política, preferimos a peleja"

Olá, caros leitores.

Cheguei a postar esse texto na madrugada que foi escrito (7 para 8 de junho), mas levantei da cama e retirei do blog. Vejo nele algumas imperfeições, principalmente nos defeitos mundanos.
A realidade é que eu só o republico, hoje, pois ele é filho de uma reflexão "madrugadeira" e, também, observo certa qualidade técnica (fruto de pesquisa literária). Até a ironia presente no corpo do texto é o espelho do estudo modernista, numa inspiração oswaldiana e andradiana.
Não é nada pessoal - devemos combater ideias e não pessoas.
Mas...  "Somos o que podemos ser! Temos o que podemos ter!"

Olinda, PE, 9 de junho.


=================================
Entre a poesia e a política, preferimos a peleja


Não existe literatura sem política, pois toda literatura é política e toda política passa pela literatura.
Talvez, quem sabe, à exceção para essa regra sejam alguns ramos da poesia.
Não existe educação sem o emprego de uma ideologia (Paulo Freire); da mesma forma é difícil conceber um texto literário que não envolva manifestações ideológicas do autor (a ideologia está inerente aos signos - Mikhail Bakhtin).
Quando tentamos apresentar a nossa ideia, por intermédio das letras, escolhemos um caminho a seguir, o que pressupõe a exclusão de outros. A utilização das ferramentas da linguagem (estilísticas, estéticas etc.) passa por essas opções, ou seja, pelo que o autor julga que é o mais correto para a defesa de seus preceitos (deterministas ou não). Exemplos fáceis: parnasianismo defendeu o culto da forma; Semana de Arte Moderna pregou a liberdade radical; geração de 45 a alavancou volta da literatura séria e compenetrada etc.
Por qual motivo a política de Santiago é aguerrida?
Devido à qualidade de sua literatura. Da literatura santiaguense. Existe uma literatura na nossa região, sendo que o micro é a representação do macro (literatura brasileira).
No caso específico, a qualidade é notada pela condição de “debate” levantado pelos blogs (literatura virtual) que antecede ao pleito. Os blogs colocam fogo e já estão presentes nas conversas das "rodas de chimarrão", ou seja, o virtual modificou o tradicional.
A realidade é que uma das características da escrita do Júlio Prates (fruto de seus méritos como cientista político) é provocar a discussão (Oswald de Andrade santiaguense). Não é ao acaso que às duas horas da manhã me proponho a escrever tal postagem. O nosso povo gosta de brigas. Essa é a maior verdade. O Oracy Dornelles já sabe disso e detalha nas suas crônicas dignas de Nelson Rodrigues "ultracontemporâneo".  Nisso o Bianchini também contribui (Está morto quem não peleia!), por defender o que pensa. Fazemos parte do povo, assim como os políticos escolhidos representam esse povo. Gostamos de defender os nossos propósitos, como Bento Gonçalves brigava pelos dele.
Tenho que concordar, parcialmente, com um escritor antagonista (sabe aquele personagem da história do Harry Potter “aquele que não deve ser nominado”). Bem, concordo em partes com “aquele que não deve ser nominado” no ponto que a poesia ainda não é uma grande paixão em Santiago. 
Contudo, só complemento que a literatura está arraigada na história dos gaúchos (e dos santiaguenses), nas discussões políticas, bem mais que em outros estados brasileiros. Justamente pela polarização que transcende a Guerra dos Farrapos e, posteriormente, MDB x Arena, PDS x PMDB, PP x resto do mundo (resto do mundo x resto do mundo)... Blog x Blog.
O gaúcho possui uma “genética” mais destinada aos conflitos. A nossa tradição é baseada nas causas e consequências de uma revolução interna, que comemoramos a cada 20 de setembro. Não é isso? A cultura pernambucana, por exemplo, apesar das conflagrações que possuiu, está baseada em festas, batucadas e danças. A nossa em faca, facão, lanças e cavalos (o que não desmerece o culto ao heroísmo – descendência da honra medieval, exaltada na primeira geração romântica - índio - e propagada nos contos gauchescos, com influências de Simões Lopes Neto).
A política de nossa terra só é uma paixão por causa da literatura (histórica) de nosso povo. Os santiaguenses (moradores do centro do estado) possuem o grito libertário correndo pelo sangue. (“Dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair...” – senso comum). 
Ao lado do coração do rio grande, somos uma ilha cercada de gaudérios por todos os lados. Cultuamos o charque, chimarrão, chácara e combate (aliteração dos caudilhos). Somos descentes de Getúlio Vargas e da fazenda em São Borja. Está no sangue "terrapoetense".
Volto à declaração: não existe literatura sem política, assim como todo ato educativo possui uma ideologia. Cabe ao leitor esclarecido perceber que a condução política pode estar oculta no texto (o que é uma arte bem desenvolvida na "Terra dos Poetas"), por intermédio de máscaras (metáforas, metonímias, catacreses etc); mas sempre estará lá (determinismo linguístico, mesmo que nem sempre ela seja partidária). A maioria do povo não percebe as manipulações da imprensa, da mídia (inclui-se os blogs), mas é fato que as influências ocorrem diariamente. 
Concordo com o Juarez Girelli sobre o fato que cada um tem a sua verdade. Um dos ditados que sigo é do Leonardo Boff “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”. A verdade, segundo certo ramo da filosofia, está em outro plano (superior). A história é contada por quem vence e pelos que manipulam a opinião pública (numa ótica de Antonio Gramsci - hegemonia no sistema educacional, nas instituições religiosas e nos meios de comunicação). Essa é a verdade (risos).
Talvez, quem sabe, a poesia não esteja bem desenvolvida no mundo (afirmação materialista e neoliberal), porque adquire, às vezes, a aura de inocência. Não estou poeta, por enquanto. Entretanto, penso que o verdadeiro poeta (a poeta, a poetisa) não depende da remuneração de terceiros, pois a poesia perdurou através dos tempos como uma “mártir” da economia. Excetuando as poesias de cunho social (condoreiras ou não; poesia marginal ou não), as poesias geralmente se referem a impressões, sentimentos, metalinguagens etc. As piores prisões da poesia -  economia e política - são as suas maiores cartas de alforria. A liberdade da poesia não aceita a opressão neoliberal e toda essa necessidade de vendas (interesses do mercado e do homem). A poesia introspectiva contemporânea é alienada, mas não é lunática. Ela pode estar num universo paralelo da política, mas não nas suas entrelinhas.
Voltando à Santiago: a política regional se torna acirrada não pela política, mas por méritos da sua literatura. Nem tanto pelos políticos, mas pelos escritores. Deve-se à criatividade desses, que conseguem “apimentar” as relações partidárias daqueles. Escrevo essa ideia sem querer comprometer a competência político-partidária de ninguém, mas só para destacar o fenômeno blog. Faço um aparte (nobres colegas), complementando que existem políticos que estão escrevendo em blogs, ou seja, já são literatos (escrita literária, no sentido macro, é a feita com criatividade do autor). Veja, toda a discussão está baseada em “diz-que-me-diz-que” de blogueiros, ou seja, baseada na literatura do século XXI e suas criatividades. Penso que existem blogueiros que ficam imaginando como criar confusões virtuais. Isso é um tipo de criatividade literária, assim como foi a Semana de Arte Moderna, em 1922. 
A política santiaguense é criativa: um grande jogo de truco, ou seja, todo mundo grita, esperneia, mas só um é que poderá sair com o “espadão”. Mas, cuidado, uma andorinha só não faz verão... Por enquanto todos estão no “inbido” (Fiquei com raiva desse parágrafo, mas o blog permite o besteirol.)
Enfim, como bons gaúchos e "terrapoetenses", entre a poesia e a política, preferimos a peleja. Detalhe: a peleja literária. As nossas lanças do século XXI. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por deixar o seu comentário neste blog.
Agradeço o tempo investido nesta comunicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...