sábado, 30 de junho de 2012

E-mail recebido do Oracy Dornelles - Túlio Piva, o mais improvável do samba


Amigos que tão chegando agora: pra ver os links e pra comentar os textos, o melhor é ir no site > http://sul21.com.br/jornal/2012/06/tulio-piva-o-mais-improvavel-samba/ Toda e qualquer observação é mais do que bem vinda, essencial. Beijo nas mina e abrazzo nos mano.

Outra coisa: quem quiser os capítulos anteriores embrulhadinhos, cada um num arquivo de word, me pede que eu mando.

Túlio Piva, o mais improvável samba
O Sul21 está publicando, em capítulos, o livro Uma História da Música de Porto Alegre, do compositor e jornalista Arthur de Faria. Aqui, os capítulos já publicados.

Quem diria: flautista
– Como é que um cara lá do meio do mato, de Santiago do Boqueirão, me sai sambista?
Essa foi a pergunta que o então jovem jornalista e radialista Paulo Deniz fez pra seu colega Carlos Nobre. O ano era 1954 e Nobre puxara Deniz prum canto dos estúdios da Rádio Gaúcha para apresentá-lo ao farmacêutico prático Túlio Simas Piva. Nascido dia quatro de dezembro de 1915, Túlio era, então, um ilustre desconhecido em Porto Alegre – mas habitué das rodas boêmias locais, frequentadas pelo futuro humorista Nobre.
Volta e meia ele se tocava da sua missioneira Santiago do Boqueirão (450 km a noroeste de Porto Alegre, quase fronteira com a Argentina) pra mostrar pros amigos da Capital os sambas que compunha com aquela batida de violão que começava a se fazer cada vez mais comentada.
O curioso é que a Santiago de então era uma cidade do… tango. Quem ditava o sucesso eram as rádios Belgrano e El Mundo, transmitindo direto de Buenos Aires – e o ritmo portenho era a base do repertório das serenatas que Túlio liderava pela cidade. Mais ainda: até os 25 anos, Túlio Piva era tangueiro de carteirinha. Também gostava um tanto de música regionalista gaúcha, a ponto de apresentar um programa na rádio local com esse repertório, chamado Coisas do Rio Grande. Samba, só se houvesse um bom motivo.
Como em 1932. Aos 17 anos, viajou de Santiago a Porto Alegre pra ver Os Azes do Samba. Ok, você não lembra: Noel Rosa, Francisco Alves, Mário Reis, Nonô e o bandolinista gaúcho Pery Cunha, todos juntos, em excursão conjunta pelo sul. Vale reler, no capítulo anterior, o encontro de Lupicínio Rodrigues com os Azes.
Mas a prova definitiva do sujeito peculiar que era Túlio, é que o boêmio-família começou a compor quando… casou! A data é 1940. E aí você pensa: o cara fez um tango, certo? Errado. Em vez de tango ou milonga, veja só, saiu um samba! E sambão: Tem Que Ter. Música essa que permaneceria inédita por 16 anos, até o encontro citado cinco parágrafos atrás.
Tem Que Ter, sua primeira música, seria também seu maior hit, para sempre.
A letra, mais simples e didática impossível, dizia:
O samba, pra ser samba brasileiro
Tem que ter pandeiro, (oi, diz que tem!) tem que ter pandeeeeiro
O samba, pra ser samba na batata
Tem que ter mulata, tem que teeeeer mulaaaata
O grande achado era a peculiar batida no violão. Um negócio que contrariava várias lógicas da execução violonística mas, surpreendentemente, funcionava. Túlio usava as cordas graves mais como um surdo do que propriamente para fazer harmonia, e as agudas pareciam sintetizar algo entre os tamborins e os taróis de uma escola de samba. E era isso que, lá no começo do texto, Paulo Deniz tinha acabado de escutar – e adorado. Tudo isso exatos dez anos antes de Jorge Ben ganhar o Brasil pelo mesmo mérito: uma peculiar batida de samba no violão.
Ou seja: voltamos a 1954.

Cool é apelido: o segundo disco do Baldauf
Mal ouviu a canção, Deniz rebocou seu compositor direto para o ensaio do recém-fundado ConjuntoMelódico de Norberto Baldauf, então num momento de ascensão meteórica. Baldauf ficou encantado com o suingue e a originalidade daquilo, num momento em que ambas qualidades – suingue e originalidade – estavam em alta no mercado. Acertou ali mesmo uma promessa: ia gravar. Demorou, mas cumpriu: dois anos depois, tá ela lá, em Ritmos da Madrugada nº 2, segundo LP do Conjunto.

Suíngue é apelido: o LP do Germano, ainda broto
Começaria ali a carreira discográfica de Tem Que Ter… (que viraria Tem Que Ter Mulata só anos mais tarde, a partir da gravação do sambista paulista Germano Mathias) Registrada em dezenas de discos no Brasil, Venezuela, Estados Unidos e até na Rússia, a música rendeu a Túlio algumas gratas surpresas. Como a que teve numa tarde de Carnaval em que passeava por Montevidéu. Lá longe, ouve aproximar-se uma murga – o bloco de carnaval deles. E o que vinham tocando, na maior animação? …debe tener mulata, debe tener mulata...
*        *        *
Ainda motivado por aquele impacto inicial, Deniz lhe carrega para o exclusivíssimo Clube da Chave, que reunia a nata boêmia da cidade. Era lá que ele, Deniz, já respeitado no rádio, promovia o Encontro com Gente Nova. E mesmo que essa novidade estivesse às portas dos 40 anos de idade, o sucesso foi igual. Imediatamente Glênio Peres, também boêmio e radialista, convida Túlio para seu programa A Saudade Bate à Sua Porta, na Rádio Farroupilha.
Foram tantas emoções em tão curto espaço de tempo que o pacato cidadão voltou pra Santiago tão empolgado quanto confuso. Era um responsável empresário e pai de família (o que seria por toda a vida, como bem caracterizou o genro Jayme: Túlio era boêmio do lar, fumava e bebia moderadamente. Inclusive não sabia beber, cometendo heresias, tais como misturar uísque com guaraná ou vinho tinto com refrigerantes).


Uma das primeiras fotos na condição de "artista"
Mas, como o próprio Túlio escreveria anos mais tarde, com o casamento e o samba, uma transformação se deu em minha vida, uma verdadeira mudança de hábitos e costumes. O boêmio que eu era, parceiro das madrugadas, das tertúlias e serestas, deu lugar ao homem sério, voltado para o lar e para o trabalho. E, curiosamente, foi aí que nasceu o compositor, pois até então eu só cantava a música dos outros.
Leva um ano pra convencer a família. Mas em 1955 se manda pra Capital com malas e bagagens. Para um cidadão da fronteira – filho de um bem estabelecido comerciante italiano com uma professora brasileira – Porto Alegre resplandecia como uma Pasárgada de possibilidades. E ele sabia que não dava pra perder essa segunda chance.
Afinal, a primeira ele perdera.
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Em 1941 ele fora à capital com uma missão: pedir para o pianista e compositor Paulo Coelho passar pra partitura justamente Tem Que Ter. Era a forma de inscrevê-la num concurso da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e ninguém em Santiago do Boqueirão sabia ler ou escrever música.
Paulo, que já estava doente, morreu pouco depois (vale dar uma relida no capítulo referente a ele). Pra completar a sensação de que a canção parecia ser um pé-frio em forma de samba, meses depois a partitura chega de volta à casa de Túlio, em Santiago, num envelope postado direto da Rádio Nacional. Com um imenso carimbo vermelho escrito: Recusado!
Dez anos depois, em 1950, ele tentaria de novo um concurso de rádio, dessa vez promovido pela Rádio Farroupilha, e ganharia em duas categorias: melhor samba e melhor marcha. Só que, pelo jeito, isso não deu maior repercussão: quando finalmente mudou-se pra Porto Alegre, apenas cinco anos depois, ninguém lembrava disso.
Mas desta vez ele tinha decidido: ia ser pra valer.
Drogaria Piva foi instalada na Rua da Praia (Rua dos Andradas) quase com a Dr. Flores, coração da cidade. Era uma versão reduzida e mais específica da Casa Piva, fundada pelo pai de Túlio décadas antesem Santiago. Em Santiago, a Casa Piva ocupava uma quadra inteira – e ali o guri tinha crescido atendendo no balcão e vendo o sucesso de produtos como o sabonete Limol, conhecido em todo o Rio Grande do Sul.

Animação não parecia ser o forte da família Piva - ao menos na frente do poderoso chefão italiano da casa.
Pois em 1956 a Drogaria Piva fervia como Alka-Setzer, convertido em ponto de encontro vespertino da boemia porto-alegrense. Neste mesmo ano passa uma temporada em Montevidéu, tocando com sucesso nas rádios e casas noturnas (o que explica a murga de anos mais tarde). Na volta, graças à repercussão da estada uruguaia, é contratado pela Rádio Gaúcha. A coisa começava a engrenar.
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Semana que vem seguimos com a surpreendente descoberta de Túlio pela juventude.
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Aqui no nosso novo soundcloud, vai começar a rolar um tanto de Túlio.

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