sexta-feira, 15 de junho de 2012

Conto lunático - Completo! - Leia e entenda a história



O Grito - Edvard Munch

Conto lunático

Oscar caminhava apressado, pelas ruas de Santiago. A calça jeans, que lhe foi doada, estava apertada e causava assaduras na virilha. Próximo a estátua do Aureliano, na Rua dos Poetas, sentiu-se tonto. A tontura era uma consequência do tempo que estava sem comer (quase três dias). Sentou-se no meio-fio. Tal atitude chamou a atenção de uma mulher, do outro lado da rua. De longe, ela percebera que o rapaz era jovem, talvez um 15 ou 16 anos. Lá, na borda da calçada, Oscar permanecia desligado, apenas se preocupando com as alucinações que vinha tendo: enxergava escritores falecidos. Via-os de todas as formas e com os variados rostos. Talvez, pensou, fosse pelo fato dele gostar de ler. Achava, na verdade, que era decorrência da falta de alimentos. Qual fosse o motivo, para os seus olhos, Caio Fernando Abreu estava em pé, ao seu lado, junto da pastelaria.
- Levante-se daí, menino! Você não está doente, como eu fiquei. – Disse Caio F.
- Você diz isso, pois não precisa comer. – Respondeu Oscar.
Caio sorriu. Balançou as abas do macacão branco que usava. Sentou-se ao lado do rapaz.
- A comida da alma é o sonho. A bebida do espírito é a fantasia. Os seus olhos enxergam o impossível; mas, saiba, não existe o impraticável.
- Você, Aureliano Pinto, Cecília Meireles, Ramiro Barcelos, Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Túlio Piva... Vocês adoram filosofar! Só que eu tenho 15 anos! Será que estou louco?
Da outra calçada, a mulher tentava entender o adolescente que falava sozinho. Ela levantou e passou a caminhar na direção do garoto. Absorto na sua loucura, Oscar debatia alguns conceitos com Caio F. (que de dentro do macacão branco dizia):
- (...) Observe os sete copos na prateleira da pastelaria: por que eles estão lá? Qual o motivo de um copo estar do lado do outro? Por que eles não estão simétricos, ou seja, estão mais distante ou mais perto?
- Sei lá! – Respondeu Oscar – O dono não teve tempo de arrumar...
Caio F. sorriu e continuou:
- Os copos estão assim, porque estão assim. Existem níveis de percepção para o olhar humano. Os objetos não entram em conflito; quero dizer, os copos estão parados, apenas isso.
De repente, a figura de Caio se transformou na do sambista e boêmio Túlio Piva. O susto do rapaz foi grande, mas Túlio, acompanhado do violão, não o deixou falar:
- O Caio quer dizer que só o seu olhar é que se modifica, através do tempo e do ângulo que observa. Você pode, garoto, enxergar os detalhes mais simples, que para os outros não têm significado e torná-los o mais complexo possível: transformar um copo numa ilha. Esse é o poder da imaginação!
- O que você quer dizer? – Perguntou o jovem.
Não houve tempo para uma resposta. Oscar sentiu alguém tocar seu ombro. Olhou para cima e viu uma linda mulher. Achou-a tão bonita que perguntou:
A mulher, na faixa dos trinta anos, possuía cabelos encaracolados, pele morena e era realmente bela.
- É claro que sou real! Você está se sentindo bem?
Tanto Caio quanto Túlio haviam sumido. O rapaz ficou em pé, ainda experimentando a tontura que o forçara a sentar; então respondeu:
          - Já estou melhor! Vou embora...
O rapaz ameaçou caminhar em direção ao Círculo Militar, mas a mulher pegou o seu braço.
- Espera aí! Eu posso te ajudar... Um copo pode parecer semelhante, mas nunca será igual ao outro. “Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre.”
- Qu...Quem é você? – Gaguejou Oscar, percebendo nela outra visão.
- Meu nome é Patrícia Galvão, mas pode me chamar de Pagu.
Num relance o jovem relembrou da artista que fora a musa do movimento modernista, na década de 30; a mãe de Rudá, o segundo filho de Oswald de Andrade. Soltou-se da mão que o agarrava e correu rumo à rua Osvaldo Aranha.
Corria desabaladamente. Na esquina, fazendo a curva pelo meio da rua, enxergou Cecília Meireles, que disse: a vida é agora, não existe o depois. “A vida só é possível reinventada”.
Oscar continuou correndo. Antes de terminar aquela curva, um caminhão o atropelou. Atropelou. Matou.
A morte que ele convivera de forma lunática, agora era um fato. Apareceria, com certeza, nas últimas páginas dos jornais: seria o fim.

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