sexta-feira, 1 de junho de 2012

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 01 de junho de 2012 - Conto lunático - Parte I - por Giovani Pasini


Conto lunático – Parte I

Oscar caminhava apressado, pelas ruas de Santiago. A calça jeans, que lhe foi doada, estava apertada e causava assaduras na virilha. Próximo a estátua do Aureliano, na Rua dos Poetas, sentiu-se tonto. A tontura era uma consequência do tempo que estava sem comer (quase três dias). Sentou-se no meio-fio. Tal atitude chamou a atenção de uma mulher, do outro lado da rua. De longe, ela percebera que o rapaz era jovem, talvez um 15 ou 16 anos. Lá, na borda da calçada, Oscar permanecia desligado, apenas se preocupando com as alucinações que vinha tendo: enxergava escritores falecidos. Via-os de todas as formas e com os variados rostos. Talvez, pensou, fosse pelo fato dele gostar de ler. Achava, na verdade, que era decorrência da falta de alimentos. Qual fosse o motivo, para os seus olhos, Caio Fernando Abreu estava em pé, ao seu lado, junto da pastelaria.
- Levante-se daí, menino! Você não está doente, como eu fiquei. – Disse Caio F.
- Você diz isso, pois não precisa comer. – Respondeu Oscar.
Caio sorriu. Balançou as abas do macacão branco que usava. Sentou-se ao lado do rapaz.
- A comida da alma é o sonho. A bebida do espírito é a fantasia. Os seus olhos enxergam o impossível; mas, saiba, não existe o impraticável.
- Você, Aureliano Pinto, Cecília Meireles, Ramiro Barcelos, Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Oswald Andrade, Túlio Piva... Vocês adoram filosofar! Só que eu tenho 15 anos! Será que estou louco?
Da outra calçada, a mulher tentava entender o adolescente que falava sozinho. (continua)

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