quinta-feira, 19 de abril de 2012

Resposta ao questionamento de "Spleen e Charutos", de Álvares de Azevedo



Olá Camila.

Acredito que seu nome seja Camila L. Severino (deduzi pelo e-mail).

Antes de analisarmos o poema, vamos conversar um pouco sobre Álvares de Azevedo. 
Ele foi um escritor que morreu muito jovem, pouco antes de completar 21 anos. A maioria da sua obra foi composta dos 16 aos 20 anos de idade. Revelou talento precoce e grande capacidade para os estudos, com a leitura de vários escritores estrangeiros. 
Aderiu ao movimento do byronismo e de satanismo.
Participou de grupos boêmios e sempre teve uma saúde enfermiça. Morreu tuberculoso, como eu já disse, aos 20 anos de idade.

O "spleen" é uma palavra de origem grega e foi ligada ao sentimento de "melancolia". 
O sentimento de "spleen", ou seja, uma melancolia extrema, foi relacionada como um desejo de autodestruição, onde a única saída para esse sofrimento era a MORTE. 

A forma idealizada de encarar a MORTE pendia para o alívio diante do sacrifício que é a vida. Isso é bem característico de Álvares de Azevedo, que foi o poeta romântico, da 2ª geração (byroniana ou Mal-do-século).

A parte "Spleen e Charutos" que compõe o livro LIRA DOS VINTE ANOS apresenta características da 2ª geração, importantes para o seu trabalho, tais como:

- A sedução da morte; (temos a relação AMOR x MORTE - ou seja, o desejo de amar e o desejo de morrer. Procure versos que relacionem o amor e a morte. Apresentarei uma estrofe, de II - Meu anjo:

"Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte um desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!"

- O ideal de beleza feminino também está ligado com a MORTE: o belo está nas virgens pálidas, nas mulheres lânguidas, que sejam magras e brancas. 

Toda a parte VI - O poeta moribundo está relacionada ao sentimento romântico em relação a MORTE:

                         VI
            O poeta moribundo


Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
(...)
Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!
(...)
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!



Em determinados momentos a MORTE assume a figura feminina, metaforicamente. Observe no extrato supracitado que a MORTE aparece desdentada e lazarenta, ou seja, o medo de morrer é muito ruim. Mais adiante ele desdenha a vida, dizendo que no inferno é que estão as mulheres belas, o que mostra que não está arrependido pelo que fez e considera o inferno uma boa opção.


As poesias byronianas de Álvares de Azevedo (assim é "Spleen e Charutos) tendem para a evasão e sonho. As comparações e metáforas da poesia de Álvares de Azevedo apresentam tendências para o "Eros", mas com uma única saída, no final de tudo: a MORTE.

Para isso, a linguagem dessa poesia apresenta IMAGENS (saudade, solidão, morte e pessimismo "spleen") e RITMOS (termos escolhidos para dar uma musicalidade).

Enfim, em "Spleen e charutos" - há um relacionamento entre "melancolia e boemia". Quero dizer, apesar de jovem, Álvares de Azevedo era um boêmio; na mesa de bar debatia os amores e as dores com outros amigos e escritores. A biografia de Álvares de Azevedo diz que eles bebiam muito vinho. Veja a estrofe abaixo:

                      IV
                 A lagartixa

(...)
Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

A obsessão pela MORTE é parte da arte de Álvares de Azevedo, como podemos observar, num exagero sentimental. Para ele o "MORRER" é o paraíso, o que o "eu-lírico" persegue como uma escapatória idealizada para o tédio, o pessimismo, a melancolia, ou seja, o salvamento do árduo "Spleen" - onde o poeta se sente preso.

Espero que tenha ajudado em algo.

Se tiver dúvidas, entre em contato.

Abraços!
======================
Quem quiser ler "SPLEEN E CHARUTOS", parte completa do livro "Lira dos 20 anos" é só clicar em "mais informações":


SPLEEN  E CHARUTOS (Álvares de Azevedo)

                               I
                    Solidão

Nas nuvens cor de cinza do horizonte

A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem xale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É doida por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes
E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros...
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam os lábios teus como suspiros!

Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?

Minh’alma tenebrosa se entristece.
É muda como sala mortuária...
Deito-me só e triste, sem ter fome
Vendo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!

                        II
                 Meu anjo
Meu anjo tem o encanto, a maravilha,
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto.
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.

Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte um desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!

                        III
                Vagabundo

            Eat, drink, and love; what can the rest avail us?
                                                           Byron, Don Juan

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos, nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, Domingo, à missa.

                        IV
                 A lagartixa

A lagartixa ao sol ardente vive

E fazendo verão o corpo espicha;
O clarão de teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores;
Engrinaldo melhor minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amoress.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.

                        V
            Luar de verão

O que vês, trovador? – Eu vejo a lua

Que sem lavar a face ali passeia;
No azul do firmamento inda é mais pálida
Que em cinzas do fogão uma candeia.

O que vês. Trovador? – No esguio tronco
Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira...
Além se entorna a luz sobre um rochedo
Tão liso como um pau de cabeleira.

Nas praias lisas a maré enchente
S’espraia cintilante d’ardentia...
Em vez de aromas as doiradas ondas
Respiram efluviosa maresia!

O que vês, trovador? – No céu formoso
Ao sopro dos favônios feiticeiros
Eu vejo – e tremo de paixão ao vê-las –
As nuvens a dormir, como carneiros.

E vejo além, na sombra do horizonte,
Como viúva moça envolta em luto,
Brilhando em nuvem negra estrela viva
Como na treva a ponta de um charuto.

Teu romantismo bebo, ó minha lua,
A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso... e só de ver-te
Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.

                        VI
            O poeta moribundo

Poetas! amanhã ao meu cadáver

Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um’alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a missa!

                        *

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