terça-feira, 17 de abril de 2012

E-mail recebido da Iara Peixoto - linda crônica de Moacyr Scliar sobre Machado de Assis - Vale a pena ler!

"A propósito de tua crônica sobre Machado de Assis, estou te enviando uma do Scliar, que guardo há tempos, pois aborda um aspecto interessante da vida dele. Abraços." ===========================================
CORAÇÃO   DE   COMPANHEIRO 
(Moacyr Scliar)

     Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher. Ao menos no caso de Machado de Assis, cujo centenário de falecimento ocorre neste dia 29, esta frase parece ser muito verdadeira. Estamos falando no maior escritor brasileiro, o que é praticamente consenso da crítica. Mas estamos falando também no menino pobre, mulato, neto de escravos, epiléptico e gago, um menino que não frequentou escola, mas que enfrentou com bravura um destino adverso. Sua infância foi marcada pela perda de figuras femininas que haviam sido muito importantes para ele. Quando tinha seis anos, morreu-lhe a única irmã. Quatro anos mais tarde, a mãe faleceu.
      Depois perdeu a madrinha, uma senhora rica, protetora e afetuosa, em cuja propriedade a família morava. E dê-lhe vida dura: aos 14 anos, Joaquim Maria começou a vender os doces confeccionados pela madrasta para ajudar no sustento da casa. Trabalhou  ainda como caixeiro de livraria,  tipógrafo e revisor, antes de iniciar a bem-sucedida carreira de jornalista e escritor.
       Machado de Assis tinha um amigo, o poeta Faustino Xavier de Novais, que, a certa altura, começou a apresentar sinais de perturbação mental. De Portugal veio então a irmã de Faustino, Carolina Xavier de Novais, para supostamente cuidar do irmão. Supostamente porque, segundo uma versão, ela teria sido mandada embora pela família depois de um caso amoroso, em que fora seduzida e abandonada.
       Carolina ficou amiga de Machado, que era quatro anos mais moço do que ela. Conta-se que, numa visita, Machado, a sós com a moça, pegou a mão dela e perguntou-lhe se aceitava-o como esposo. A resposta afirmativa veio firme e decidida, mas não contou com o apoio da família, que não queria ver Carolina casada com um mulato epiléptico.
       Carolina desempenhou um papel importante na vida de Machado, inclusive do ponto de vista literário. Culta, versada em  gramática, ela lia os textos dele, corrigia-os, passava-os a limpo. Mais importante: até então Machado tinha sido um escritor romântico, que escrevia bem, mas que não produzira obras marcantes. Por insistência de Carolina, ele muda de estilo, torna-se realista e, como se vê em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ultrapassa até mesmo o realismo, inaugurando uma nova fase na ficção brasileira.
       Muitos psicanalistas veriam nessa relação um elemento edipiano, Carolina representando para Machado uma figura materna. E isto ficou mais evidente porque não tiveram filhos. Quando ela morreu, Machado desabou; sobreviveu-lhe apenas quatro anos, doente e melancólico. Um poema escrito quando do falecimento dela fala dessa paixão: “Ao pé do leito derradeiro / em que descansas desta longa vida / aqui venho e virei, pobre querida / trazer-te o coração  de companheiro.”
       Coração de companheiro. Coração de companheira. Desses corações é que são feitas as verdadeiras uniões.
                                                                                                                         (Moacyr  Scliar – Zero Hora, 28/09/2008)


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Agradeço o e-mail da Iara Peixoto.
Realmente, o Moacyr Scliar e o Machado de Assis são fantásticos escritores da Literatura Brasileira.
Quem puder ler a crônica do Moacyr, digo que vale a pena!

Abraços Iara!

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