sexta-feira, 30 de março de 2012

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 30 Mar 12 - Crônica "De Repente" - por Giovani Pasini


De repente

Foi de repente. As palavras inadequadas saíram daquela boca, ofendendo-o com o maior dos vigores. Os segundos que se passaram, logo após a injúria, transcorrendo num silêncio absoluto, ainda com todas as sensações imóveis. As paredes não se mexiam e o tempo estava num daqueles raros instantes, que parece não haver o depois. Os próximos pensamentos, envoltos pela mágoa, foram de retrospectiva de toda a sua existência. Nasceu triste, ficou de pé, cresceu e sustentou as inquietações que o transformaram no que ele era: um respeitado padre. Em momento algum, na sua vida de sacerdote, pensara em desistir – até agora. Tinha sobrepujado os desejos mais secretos; havia dominado as necessidades carnais obscuras; manteve a sua fé, com paciência, em nome da doação. Doar em silêncio – essa era a sua vocação. Na juventude, pensara que poderia suportar os mesmos pregos que Jesus e padecer em qualquer calvário. Após aquele ultraje, retornava a ser apenas uma criança indefesa, com medo de fantasmas que flutuavam no pé da sua cama de menino. Uma palavra, uma pessoa, várias indecisões. Olhava aquela mulher opulenta, obesa e pensava “Eu nunca fui isso!”. No fundo dos olhos femininos, gélidos, perdurava uma friesa que ele nunca vira. Ele tentou se defender: “Mãe...”, mas foi interrompido, com a repetição do insulto: “Você é um grande egoísta!” Aquela voz aguda o encobriu, como um amplo manto negro, forte e tenebroso. Uma frase tinha tanta força quanto a maior das chagas sofridas por Jesus. Descobriu, então, que uma menção também poderia vir a ser um demônio.

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