sexta-feira, 23 de março de 2012

Artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 23 Mar 12 - Crônica de um morto-vivo - por Giovani Pasini

Crônica de um morto-vivo

Quando ouviu o tal “negócio”, a primeira reação do funcionário público foi de desagrado. O fornecedor ultrajava a sua honestidade. A seguir, a dádiva não pareceu tão ofensiva, principalmente quando o vendedor afirmou “A ética do mercado diz que se você ficar com 15%, estará tudo certo!”. O comprador do sistema de saúde, na aquisição de remédios, naturalmente titubeou. Os pensamentos eram variados: “Aceito essa indecência? E as pessoas que irão morrer por causa dessa patifaria?”. Chegou a pensar que aquilo seria um desatino e que a voz de sua consciência não o perdoaria, no futuro. Quanta confusão a ser criada por R$ 300.000,00 que seriam depositados “limpinhos”, na sua conta-corrente. O conflito durou segundos. Afinal, ele vivia num país onde diariamente se desviava dinheiro – especialmente da saúde e educação – e nada acontecia. “A memória do brasileiro é curta”, pensou, “nós não sabemos em que votamos na última eleição”. Aceitou a propina e favoreceu o golpe; seria somente essa vez. Ah! Deus sabia o quanto ele merecia aquele dinheiro, para compensar o seu trabalho duro. Não era como aqueles professores, enfermeiros, militares, policiais e tantos outros cidadãos que se contentavam com tão pouco. Enfim, aceitou a “corrupçãozinha” para comprar um apartamento de luxo. “A partir de agora serei honesto!”, ponderou. Como se a desonra não fosse uma metáfora da virgindade perdida. A sua decisão de ser virtuoso durou até a próxima licitação. Na verdade, permaneceu corrupto até o seu corpo se tornar podre, como já era a sua alma.

Um comentário:

  1. Excelente blogue, devo dizer-lhe que após receber o convite era minha intenção dar apenas uma vista de olhos, e fiquei mais de uma hora lendo os artigos postados.Verdadeiros, humanos. Para quem compreende as suas palavras os militares só são bons quando uma nação precisa deles a defende-los até à morte. Depois somos dispensáveis como uma coisa que não presta. Um peso para o erário público. Gostei muito de ler o seu blogue. Cumprimentos amigos

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