segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Artigo para o Jornal Expresso Ilustrado - Ratos reflexivos - 9 de dezembro de 2011, por Giovani Pasini


Ratos reflexivos

Ao passear pela orla de Recife, capital de Pernambuco, deparei-me com uma presença diferente – um grande rato cinza. Quando ele me enxergou, ficou parado, de forma inusitada, próximo a um bueiro. Imitei a sua atitude, olhando-o fixamente, ainda que um pouco mais afastado do esgoto. Éramos dois corpos de carne e osso, diferentes, mas constituintes da paisagem típica de uma metrópole. O fato estranho é que ele ficou me encarando, com o olhar puramente reflexivo, sem demonstrar o mínimo de espanto. Considerável tempo depois, fiquei irritado e pensei “Que audácia! Esse rato nem está com medo!” A ação que tive foi a de bater com o pé no chão, para assustá-lo. A reação do “arrogante roedor”, imaginem, foi a mais abusada possível: apenas movimentou, levemente, a pata esquerda, não ameaçando fugir. Depois disso, confesso que desisti do combate e retornei a caminhar pela calçada. Olhei para trás e vi que o inimigo plagiou a minha atitude, andando devagar, só que rumo ao bueiro. Por dentro, eu era uma mescla de derrota (totalmente sem moral) e de gargalhadas descrentes, ante o nível de atrevimento. Tive que comparar a minha experiência, metaforicamente, com a vivenciada por policiais, delegados, juízes (e comissões de éticas), quando se encontram com os grandes ratos; não adianta bater o pé, pois as ratazanas já estão acostumadas com a fraquíssima repreensão social brasileira. A realidade é que elas apenas movimentarão a patinha, para depois buscar o descanso, em luxuosos bueiros.

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