terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Gilete no fundo do poço - Artigo do Expresso Ilustrado - 14 Jan 2010

A praia estava quase deserta, devido à chuva miúda, que importunava os transeuntes. O homem andava pela areia, sozinho e pensativo. Analisava as ondas revoltosas que batiam na costa litorânea, sob um céu acinzentado. O clima estava parecido com os seus pensamentos. De repente, percebeu um pequeno cachorro de raça indefinida. O animal ameaçava entrar na água; então latia e voltava. Repetia o gesto várias vezes, executando saltos, ainda que esporadicamente. O caminhante ficou observando a cena, imerso, até escutar uma voz: "- Ele fica latindo todo o dia que chove, pois o dono morreu afogado, quando surfava." Era uma senhora gorda, atarracada, que passou pelo local, rapidamente, sem ao menos parar. Em segundos, o homem estava acompanhado apenas do cachorro, da chuva e das ondas agitadas do Atlântico. Recordou-se de ter visto algo parecido em algum filme, talvez num livro. Poderia ser mentira, quem sabe uma lenda urbana - mas parecia realidade - afinal, o cachorro estava desesperado. Pensativo, o homem sentou na areia fina e ficou olhando o canino por quase duas horas. O mais intrigante é que, tão logo o chuvisco cessou, o animal parou a sua tarefa e foi embora. O que restou foi aquele indigente, que permaneceu sentado na praia. Ele olhava para o mar de São Francisco do Sul, sentindo-se pequeno, como uma gilete caída no fundo do poço. O mesmo poço que descrevera, certa feita, Caio Fernando Abreu.

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