domingo, 6 de dezembro de 2009

A viagem para Porto Alegre - 1989 - Passo 1

Foto Márcio Brasil

Em janeiro de 1989, quando eu tinha 13 anos, embarquei no ônibus da planalto, às 00h00min e sentei na poltrona "semi-macia". A viagem tinha o destino para Porto Alegre, onde eu passaria a estudar no Colégio Militar (CMPA).
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Até hoje lembro, caro leitor, do momento que o veículo coletivo saía no trevo do Batista e, perto do distrito industrial (que na época quase não existia), tive a oportunidade de ver as luzes dos postes e das casas, à direita, que iluminavam a minha terra natal.
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Naquele momento, não segurei as lágrimas, lembrando dos meus pais que haviam ficado na rodoviária santiaguense. Fiquei quieto, chorando baixinho e fiz a seguinte promessa (para mim mesmo): "Ainda volto pra Santiago..."
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Apesar das lágrimas saírem quase em silêncio, um senhor de bastante idade, que tinha por volta de 80 anos, companheiro de poltrona, percebeu o meu sofrimento e disse:
- Não fique triste... Você está indo embora? O que houve?
Quando expliquei o caso, de que iria para o Colégio Militar de Porto Alegre, ele sorriu e continuou:
- Comigo aconteceu algo parecido. Só que fui forçado. Quando eu tinha 14 anos, eu tive a minha primeira experiência sexual. Uma vizinha de mais idade, acho que deveria ter uns vinte, foi comigo para um "capinzeiro" do lado da estrada e perto de casa. Quando nós estávamos no "bem-bom" a mãe dela nos pegou! Escutamos os passos dela, ficamos em silêncio, mas não adiantou! Aí, tu imagina... O meu pai me colocou no internato do colégio agrícola. Mas foi bom. Lá naquela escola aprendi muitas coisas e foi naquele ambiente que me tornei homem...
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Aquela narrativa povoou minha mente de criança. Acho que a vontade de criar histórias aumentou com as aventuras do velhinho. Em resumo, não deixei que ele dormisse durante todo o trajeto. Num determinado momento, quando ele estava sonolento, cheguei a esbarrar no seu ombro, mentindo que era culpa da curva do asfalto. Obviamente ele percebeu. Sorriu e continuou a contar histórias fantásticas de sua vida passada...
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Voltei a pensar em Santiago somente quando descia na "enorme" rodoviária de Porto Alegre. Era um mundo fantástico que se abria, descortinava o véu da inocência; e a cidade grande, dos prédios fantásticos e dos navios portuários, "engolia" o menino que havia viajado, quase seis horas, escutando os contos fantásticos de um idoso inominado...

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