terça-feira, 10 de novembro de 2009

Artigo para o jornal Pampa Regional: A chuva e o suor




Gosto de relembrar o meu velho pai.

Quando eu era criança, ele contava as suas histórias na colônia italiana, do alto-uruguai. Meu pai, Acir José Pasini, nascera em Barra Funda, RS, que fica relativamente perto de Palmeiras das Missões.

O velho Acir dizia que acordava as cinco horas da manhã, caminhava cerca de oito quilômetros e trabalhava o dia todo, debaixo do sol escaldante, na plantação da família. O almoço era pão e salame, acompanhados de um caneco de vinho. A mão ficava calejada e as costas (protegidas pelo chapelão) vermelhas e ardidas.

O suor banhava a carne. Pela testa escorria um rio de trabalho, árduo, difícil e lento. A enxada e a foice não eram tão rápidas quanto a máquinas da modernidade. O arado ainda era puxado por bois ou cavalos.

A dicotomia da existência: dificuldade e valor.

Quando as coisas surgem com dificuldade, de penosa conquista, a personalidade valoriza mais. Tudo o que é fácil torna-se barato e descartável. Por isso que as vitórias de batalhas prolongadas, heróicas, são as que damos maior importância.

O mesmo acontece com os exemplos.

A chuva lembra as histórias de meu pai. Hoje (terça-feira, dia 10 de novembro de 2009) está chovendo bastante. Santiago possui (agora) pequenos riachos de lágrimas, suor e aguaceiro.

Quando eu era pequeno, não gostava dos dias de chuva. Reclamava, pois o pátio enorme (com ameixeiras e pessegueiros) não podia ser explorado. Eu dizia: “- Que ódio! Essa chuva não me deixa brincar!”

Um dia, lá pelos meus dez anos, o Acir José Pasini disse, de forma calma e pausada:

“- Eu gosto da chuva. Na minha infância eu só podia brincar quando chovia muito. Nós não podíamos trabalhar na roça e ficávamos brincando no galpão.”

Como ele percebera que ganhara a minha atenção de criança, continuou:

“Quando eu estava com a enxada e olhava o céu limpo, o sol a pino, mentalmente torcia para que viesse a chuva. Pensamento de criança, sempre gostei de trabalhar. Mas, o galpão e a chuva forte foram os meus palcos da infância...”

A partir daquele dia passei a respeitar (mais) o suor e, principalmente, a chuva.

Um comentário:

  1. Adorei!

    Como o seu pai, eu também adoro a chuva.

    Acho que as águas das nuvens lavam a nossa alma
    que muitas vezes está suja.

    O barulho da chuva é o melhor calmante...

    Muito bom o blog!

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Agradeço o tempo investido nesta comunicação.

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