segunda-feira, 25 de maio de 2009

O vendedor de picolé...

Um artigo do Márcio Brasil me vez voltar à infância. No texto, o Márcio disse que comprou um chocolate de um menino e eu lembrei as minhas façanhas de vendedor de picolé, em Santiago.
Vou contar ao leitor...
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Eu tinha 12 anos de idade. Era o ano de 1987.
Começei a vender picolé de uma sorveteria que tinha na rua Osvaldo Aranha, logo após o posto de combustível da cooperativa.
Esse foi o meu segundo modo de conseguir dinheiro. O primeiro foi vender jornal e garrafas de bebida para o Firmino, do Bar Bonanza. Também havia passado por algumas tentativas fracassadas de vender ossos, para os velhos carroceiros, lembram?
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Na verdade, os vendedores de picolé eram três: eu, o meu amigo Volnei Polga e seu irmão Robson Polga.
O nosso sonho era ficarmos ricos! Algo difícil, mas só o fato de sonharmos já tornava o trabalho mais agradável.
Pegávamos as caixas de isopor e "Shhhisp", saíamos quase que correndo. Lembro que competíamos para ver quem vendia mais picolés. Os famosos gritos: "Picolé, sorvete!" -- "Picolé, sorvete!" nas ruas de paralelepípedos azuis, com o sol escaldante e a esperança de uma boa venda.
A cada casa, em toda residência, imaginavámos tesouros escondidos, prontos para serem entregues em troca de um saboroso picolé. Éramos negociadores, vendedores, autônomos e, principalmente, livres....
Acho que, por sorte, geralmente eu é que ganhava a disputa. Recordo que analisava os locais que mais se vendia picolé: atrás do Hospital Militar, na Belizário e na Vila Itu. Sempre voltava lá!
Tenho quase certeza que essa foi a primeira vez que me senti um vencedor...
Cheguei, caro leitor, a ser promovido. Recebi um carrinho para empurrar. Aqueles com rodas! Não era mais apenas um vendedor de caixa de isopor...
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Entretanto, nem tudo eram flores.
Como todo jovem, tinha imensa vergonha da possibilidade de algum colega do Apolinário Porto Alegre me ver vendendo picolé.
Ai, ai, ai! Pior ainda se o colega fosse uma menina!
Aconteceu uma vez, apenas uma vez. Eu observei a menina, acho que tinha o nome Isabel, e dei a meia volta, quase saí correndo em disparada. Passadas largas, coração em disparada.
A minha mãe me disse naquela época: "Vergonha é roubar e não poder carregar!"
Velho ditado popular. Fácil falar - difícil era incutir isso na cabeça de um pré-adolescente...
No dia seguinte, a Isabel me perguntou:
- Era tu que estava vendendo picolé?
Vocês acham que eu neguei ou falei a verdade?
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Certa feita, em uma casa lá perto do Hospital Militar, num calor infernal, um homem perguntou:
- Você tem picolé de cachaça?
Envergonhado, respondi que não.
Então ele me disse:
- Quero comprar todos os picolés de sua caixa, mas escolha um para você...
Instantes depois, eu voltava para a sorveteria com um picolé de morango cremoso e com a caixa vazia...
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Os meus amigos Volnei e Robson gastavam os seus lucros. Recordo, com a maior claridade, que o Volnei comprou um óculos escuros no lojão Oba-Oba.
Dentro de meus sonhos de conquistar o mundo, resolvi criar uma poupança no Banco Meridional.
Eu já tinha algum dinheiro, bom por sinal, que resolvi mostrar os lucros para os meus pais.
Um dia, pouco tempo depois, a minha mãe chegou e disse:
- Giovani... Estamos apertados. Empresta o teu dinheiro da poupança para o teu pai? Quando puder, ele te paga, tá?
Como eu poderia dizer não?
A poupança nunca tive de volta.
Entretanto, o meu pai me pagou com tudo o que tenho hoje. Uma boa troca...
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Quando eu estava perto dos 14 anos, estava percorrendo a Vila Itu. Uma garota maior, por volta de 20 anos, olhou-me e disse:
- O que um rapaz tão grande faz vendendo picolé?
Fiquei com muita vergonha. Abandonei o ofício e, poucos meses depois viajava para o Colégio Militar de Porto Alegre. Era final do ano de 1988. Saí daqui chorando, no ônibus da meia-noite, rumo a capital do Estado. Na época pensei: "Ainda vou voltar para a minha Santiago..."

Voltaria a morar em Santiago cerca de dez anos depois...



3 comentários:

  1. Muito bom o texto!
    Gostei da história.

    É uma realidade que se torna mágica!

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  2. É impressionante o quanto eu consigo viajar nos seus textos.
    Parece que eu estava vendendo picolé!

    Parabéns.

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  3. Cara, caí sem querer no seu site e gostei muito mesmo do texto, parabéns...

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Obrigado por deixar o seu comentário neste blog.
Agradeço o tempo investido nesta comunicação.

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